terça-feira, 10 de março de 2009

Tainha

Paulo Melo, Tainha, monge zen, mestre, atravessou a cortina hoje. Não cheguei a ter tempo de ter intimidade com ele; conhecia-o há séculos, pelo Aníbal. Fui à casa dele, mandei emails, peguei livros emprestados, conversamos... numa "lista preliminar" sobre "zen básico" me mandou uns cem livros, determinada vez. Queria ter vivido mais ao seu lado - estou transpondo fitas cassetes com palestras dadas por ele ao longo dos anos, para mp3, e durante esses dias todos depois do carnaval tenho escutado o Paulo - tomei um susto quando o Aníbal me ligou hoje cedo dizendo "seu mestre morreu". Não chegou a ser "mestre" mesmo por falta de tempo, mas sentia uma enorme afinidade com os pensamentos e linhas seguidas por esse amigo. Abaixo, um poema de que me lembrei imediatamente quando, agora à tarde, cheguei em casa e liguei o gravador para terminar de ouvir uma das palestras:

Anunciaram que você morreu.
Meus olhos, meus ouvidos testemunharam:
A alma profunda, não.
Por isso não sinto agora a sua falta.

Sei bem que ela virá
(Pela força persuasiva do tempo).
Virá súbito um dia,
Inadvertida para os demais.
Por exemplo assim:
À mesa conversarão de uma coisa e outra.
Uma palavra lançada à toa
Baterá na franja dos lutos de sangue.
Alguém perguntará em que estou pensando,
Sorrirei sem dizer que em você
Profundamente.

Mas agora não sinto a sua falta.
(É sempre assim quando o ausente
Partiu sem se despedir:
Você não se despediu.)

Você não morreu: ausentou-se.
Direi: Faz tempo que ele não escreve.
Irei a São Paulo: você não virá ao meu hotel.
Imaginarei: Está na chacrinha de São Roque.

Saberei que não, você ausentou-se. Para outra vida?
A vida é uma só. A sua continua
Na vida que você viveu.
Por isso não sinto agora a sua falta.

Manuel Bandeira
(A Mario de Andrade ausente)

3 comentários:

BURKAWOMAN disse...

Olá. Soube da passagem de Tainha por um amigo de bariloche. Foi meu mestre e me ensinou a atravessar a cortina... as muitas cortinas da vida. Uma vez, uma dessas cortinas era feita de muitas garrafas se quebrando, numa batalha campal na rua Direita, em Ouro Preto. Caso você disponibilize as palestras dele, teria como ficar sabendo?
Obrigada,
mvcaputo@yahoo.com.br

Helem Lara disse...

Mariângela,

Sei que não deveria sentir saudades uma vez que não estamos separadas verdadeiramente pois comungamos da mesma energia universal. Mas sinto falta de olhar em seus olhos e ouvir a sua voz e de meditar no Templo em Ouro Preto.
Qualquer dia apareço. Fisicamente.
Abraço,
Hélem

Cris disse...

Pessoal:
Estive em Ouro Pretu duas vezes e não consegui visitar o mosteiro, embora o tenha conhecido antes de planejar minhas viagens. Espero voltar, visitá-los, poder ler algo de vocês no blogue também. Estou atnta para a divulgação de Seshins de fim de ano, Carnaval, etc...Gasshô!